RAPSÓDIAUSGANG 2012

RapsódiAusgang é a primeira montagem da Ausgang de Teatro, estreada em 2012 e encenada na casa de Claudia Simões e Zebba Dal Farra, na Pompeia.

Há uma crescente e notável desvalorização do espaço público, invadido pelo privado.

Basta olharmos o papel preponderante dos automóveis – espaços privados em movimento – na cidade, em relação aos pedestres: é preciso um esforço enorme para somente conseguir ordenar esta relação, ditada pelas máquinas e pela indústria, e garantida pela ação policial. As praças desaparecem, multiplicam-se as avenidas. Os rios são canalizados, e suas margens concretadas. A língua privatiza-se, domesticada por publicitários e ilhada nos discursos dos especialistas: jornalistas, médicos, economistas. No campo da cultura – do teatro e da música, em particular – é cada vez mais comum a decisão dos investimentos públicos ser tomada por empresas privadas. Nestes tempos de transferência do público para o privado, o oferecimento do privado para o público anima esta proposta teatral. A saída aponta para dentro de casa, para um coletivo singular, para pessoas na proximidade do acontecimento. Rapsódia Ausgang é um ato que deseja contribuir para o debate de valorização do espaço público.

Mas talvez seja também seu réquiem, seu canto fúnebre. 

 

Sabe-se que rapsódia é uma composição de fragmentos de textos e canções, ditos pelo rapsodo, aquele que cose os cantos.

A encenação rapsódica compõe, justapõe, funde e contamina textos, canções e aparições, sempre em busca de uma vocalidade poética, entendida como a voz – e o corpo – em performance, em ação, em relação.

Os rapsodos transitam e tensionam atores e personagens: cantam, dançam, dizem, em perspectiva polifônica.

A transformação da casa em teatro exigiu um mergulho nas memórias que impregnam fotografias, livros, sofás, refletores, cortinas, figurinos, discos, trilhas sonoras, vozes, lembranças, narrativas e canções.

Este intenso movimento de escuta espelha-se nas cenas e nas ações que impulsionam o itinerário da RapsódiAusgang e propiciam o compartilhar da memória.

Os cômodos da casa se transformam em espaços cênicos, marcados por antigas experiências teatrais com Flávio Império e Myrian Muniz, mestra do grupo.

A casa feita teatro pode, como consequência da proposta e do processo, se fazer espetáculo, pois ela mesma e seus habitantes transformam-se em cenografia e sujeitos do acontecimento teatral, seres que pendulam e vibram no espaço da pessoa, do ator e da personagem. Rapsódia Ausgang é um grito na tentativa de compreender e desmontar o embrutecimento que, intermitente, nos entorpece.

ELENCO: Maria Simões, Zebba Dal Farra, Aline Alves, Carlos Silva e Carolina Martins.

foto joão gold

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